quinta-feira, 27 de maio de 2010

Inaugurice


Prazer, gente – embora este blog seja uma tentativa um tanto quanto desesperada de lidar com o desprazer. Uma das formas máximas de desprazer: o pavor profissional. Pois é. Eu sou uma misplaced – e assumo. Uma daquelas criaturas que trabalham em alguma coisa e é como se desestivessem lá. Vão, mas é como se não fossem. Fazem o que têm de fazer, mas é como se não fizessem. Têm adoração pelos feriados e, apesar de odiarem futebol, suspiram pela Copa do Mundo. Todos sabem, afinal, que Copa do Mundo é um carnaval remix: uma segunda chance, durante o ano, para nada acontecer de verdade. Nada sério, é claro.

E onde é que eu desestou com tamanha intensidade? Nas salas de aula. Do município. Do Rio de Janeiro. Escola ruim? Nada: boa, até. Uma Sorbonne, perto do resto. Aí vem a pergunta do milhão: adianta? Ultimamente, tenho até considerado que isso prolonga o sofrimento. Se o lugar fosse um buraco imundo, depredado pelos alunos, com professores ameaçados na bazuca, tiroteios pontuais às 9h e às 13h, esfaqueamentos diários por causa de um pacote de figurinhas, eu simplesmente teria virado as costas no primeiro dia e ido embora. Sem sofrer, sem refletir, sem me martirizar. E o melhor: sem ser repreendida por "largar a estabilidade". Quem iria questionar minha fuga?

Mas não: o bicho é direitinho, dentro do que pode ser. E eu – prazer, gente – eu sou atualmente uma misplaced, refém de uma "boa" situação, que é, muitas vezes, cruel quase igualzinhamente às situações piores. A infelicidade que não é trágica não tem sequer o consolo do respeito alheio.

8 comentários:

Thamyzinha Iwasaki disse...

seja benvinado ao mundo dos blogs rs
espero por mais postagens^_^

xau

Anônimo disse...

Acredito que deveria ser mais grata ao que possuí, existem professores que lecionam em escolas terríveis e quando assistem a evolução de um aluno ou aluna sentem-se imensamente gratificados, definitivamente você não deveria ser professora, a educação no nosso país é péssima, os professores não possuem amor a profissão e não são nem um pouco incentivados pelo salário, que no estado é muito pior que no município... desista do magistério, procure outra carreira, médico e professor tem que gostar de gente e sentir-se realizado em fazer a diferença na vida de outra pessoa, a transformação, a evolução é um processo, não acontece da noite para o dia...

Márcia Neves disse...

Eu amo ser professora, adoro ensinar, mas estou tendo o mesmo desprazer. Me sinto como alguém que precisa implorar pra que os necessitados aceitem minha ajuda. É como se eu estivesse oferecendo ouro precioso aos mais miseráveis e eles simplesmente desprezando tudo que ofereço, ainda zombam. De que valeram os anos na faculdade, as boas idéias, as aulas cuidadosamente planejadas se aqueles que deveriam valorizar nem sequer ouvem o que tenho a dizer? É o desprazer total, grande decepção. É o Brasil. É o município do Rio de Janeiro. Lugar onde os pobres e ignorantes têm orgulho de ser assim e assim desejam permanecer até o fim das suas vidas miseráveis...

Cris Prates disse...

UAU!!! Eu diria que é uma situação complicadíssima. Moro em uma cidade do interior do RS, e uma vez ou outra aparece uma caso de violência contra os professores. Não é freqüente(graças a Deus!) Mas desrespeito...isso vem de tempos. Embora tenha tido um ou outra experiência ruim com algum professor, ou tenha presenciado algo, ou apenas tenha ouvido falar de algum caso... etc, acho que imagino um pouco do que você fala. Mesmo sendo mãe de aluno é possível entrar um pouco do outro lado e sentir o que o professor passa em sala de aula. É lamentável o caminho que toma a educação, e não me refiro só a educação na escola, professores,etc. Refiro-me principalmente a escola família, nossa primeira cartilha, de onde acredito sinceramente que é de onde trazemos os passos seguintes, a base para convivermos bem, com colegas, professores...a sociedade no geral. Não desanime!! Vou torcer para que lhe ocorram mais coisas boas em sua profissão e para que você as partilhe conosco.bjs e fique com Deus

Anônimo disse...

Cara,
não sinta-se culpada pelo desgosto. Na minha opinião o desagrado é recíproco. Ou seja, se de um lado o professor sente um imenso desânimo, o aluno, por sua vez, o sente também. Insistir é inútil. Entretanto, não sou pessimista, pois acredito que podemos e devemos transformar a educação. A escola precisa ser diferente, os alunos e os professores devem sentir prazer em aprender e ensinar. Se não houver uma revolução no ensino e na aprendizagem, os professores sensíveis continuarão sofrendo e os práticos continuarão culpando-nos por não gostamos de gente (na verdade, quem gosta de gente, e vê a situação da educação pública é quem verdadeiramente sofre). Quanto à revolução, acredito nela e tenho boas idéias.....

*** I.C *** ** The One ** disse...

Sabe... Eu como Ex Militar e Futuro professor esse Seu Post me lembrou uma Canção

Na Infantaria, não entra quem quer
Só para os Fortes, já é tradição
A Infantaria, quando cai, cai de pé
E logo se levanta pela vibração ♪

Só troque Infantaria por Licenciatura em algo... É realmente só apra os fortes... Acho que ser professor é uma dádiva, pois o Professor é como um Solo e os alunos são as sementes... Ele tem que ser fértil pra que os alunos possam germinar, crescer, amadurecer e florecer... E se o professor está ali, sem saco, está só a carcaça pois a alma está distante e ele não dá o sangue por aquilo... Fica dificil...

Tem gente que desmerece os professores... Muitos não querem ser professores e tem pavor quando falo que serei professor.... Mas fica a pergunta. E quem seria voce sem seus professores? Pois bem...

Novamente... Se puder passa lá no meu Blog: www.usbagui100futuro.zip.net

Nayara Galeno do Vale disse...

Eu acho que sofremos justamente por ainda acreditarmos que o professor é aquele que tem a cura para todos os males. Tentemos fazer o nosso trabalho da melhor forma possível sem achar que estamos ali para salvar almas. Também trabalho como professora no município do Rio. Como a colega disse acima, é para os fortes. Não tem nada de sacerdócio no que fazemos, mas um dia poderemos olhar para trás e vermos que fizemos o que era possível fazer.

Jurema Nascimento disse...

Fernanda vc escreve muito bem. Sou prof e sei como é a nossa luta.
Espero que tudo melhore para vc e que vc possa ser feliz.
Obrigada pela sua visita a meu blog e venha quando quiser.
Beijos Ju.