sábado, 19 de junho de 2010

Dois é demais


Lembro-me das aulas de História na escola: eu ficava intrigadíssima com a famigerada frase de Rousseau, "A sociedade corrompe o homem". Ué, mas a sociedade não é composta justamente de homens?, matutava eu inocentemente. Hoje entendo, como entendo, a máxima de meu camarada. Quem vive em sala de aula sabe disso. Podem dizer o que disserem em favor das salas cheias de alunos: que eles precisam aprender a conviver, que a classe é um microcosmo da sociedade, que as referências de um enriquecem o outro etc. Bullshit. Uma montoeira de alunos no mesmo recinto serve apenas a um propósito: enlouquecer o professor e, consequentemente, atrapalhar a aula o máximo possível. Dizer o contrário é imaginar que as aulas realmente se passam como na Malhação ou nas reportagens compromissadíssimas do RJ-TV, aquelas com os alunos fingindo que a câmera não está nem ali.

Pois é o seguinte: no mundo real, aula é uma guerra. Alunos são criaturas que fingem que o professor não está nem ali. Enquanto se tenta explicar a matéria para os quatro que olham o quadro atentamente, deve-se mandar oito guardarem as figurinhas da Copa, três pararem de correr em sala, dezessete cessarem de gritar como vuvuzelas, dois desistirem de se matar, dois desistirem de se beijar, nove largarem o celular e/ou o mp3, um me devolver aqui essa porcaria de apagador e, finalmente, um sair de sala e só voltar com papai ou mamãe, ou ambos. Individualmente, são doces criaturas. Provavelmente aprenderiam cada palavra da matéria. Você é até capaz de sentir ternura por algum deles, num bom dia. Cumprimentam na rua, exclamam um "professora!" feliz e parecem gente. Em sociedade escolar, regridem ao tempo das cavernas e fazem o professor ter fantasias com tiranossauros famintos. Famintos de menininhos, é claro. Que falta faz um bom bicho-papão.

7 comentários:

Marchalenta disse...

Verdade total. Mas isso eu nem culparia os alunos e sim o conselho escolar, que organiza a escola. Seja por falta de impunidade, ou algo do gênero.

Deane disse...

Como vc disse, 'no mundo real, aula é uma guerra'.
E olha que vc nem comentou das escolas em que existem vandalismos e os alunos faltam se matar depois da aula. Tantos casos que temos visto ultimamente de brigas de escola, principalmente entre meninas.

Leonardo I disse...

Nossa, excelente! Uma visão triste e realista de grande maioria das salas de aula. Parabéns, nem todos tem a coragem para expor a verdade nua dessa maneira.

Vaca Vesga disse...

Concordo plenamente, foi-se o tempo que o Bicho Papão botava medo. Essas novas gerações já não respeitam nem mais os pais, quão dera os professores. É tudo uma barbaridade.

Pô, gostei bastante do seu blog. Vou acompanhá-lo. Posso te pedir um texto? Escreve sobre Saramago. Tenho certeza que ficará legal.

Ahh, se puder, visite meu blog:

www.vacavesga.com.br

Daniel Silva disse...

a falta de respeito dos jovens hoje não só com professores, mas com todo mundo, é triste.

Anônimo disse...

Ai que legal, vc pensa como eu!
Outro dia eu falava com minha filha, que tb é profa. Eu diza assim: a nossa profissão é tão árdua quanto a de um coveiro, ou de uma meretriz dos becos( não me referi as Surfistinhas, que ficam ricas e vão pra TV, mas falei daquelas das esquinas, mesmo).
Aí a minha filha me disse, com a cara mais séria do mundo: "não, mãe! vc tá enganada! A meretriz dos becos trabalha para um cliente que quer seu serviço, gosta e fica triste quando o serviço termina!
o coveiro é um previlegiado: o seu cliente é silencioso e educado; nao reclama, nao xinga, nao abre a boca.
A nossa profissao, a de professora, é a única em que suplicamos, pedimos, gritamos, imploramos para que nosso cliente aceite o nosso trabalho, pelo qual somos remuneradas. Pobremente remuneradas, mas somos. E mesmo assim, nosso clientezinho não aceita nosso trabalho, e digo mais; ele faz de tudo para que nao trabalhemos!".
Estou errada?

Anônimo disse...

Adorei seu texto e concordo com vc em tudo o que disse. Sou professora, gosto de ensinar, mas tem sido cada vez mais difícil sentir tesão pelo trabalho.
Ju