domingo, 27 de junho de 2010

Futuríssimo do presente


Hoje Guimarães Rosa, meu tão querido Joãozito, faria 102 anos. Não nasceu, aquele menino: aconteceu em Cordisburgo. E aconteceria em qualquer lugarzinho ou zão onde sua nave aterrisasse. Foi um fenômeno de gente apaixonada por saber coisas, por sabê-las em si mesmas, pelo saber em si mesmo. Era a definição do autodidata: o devorador de livros sim, mas de mundos também, todos os mundos que pudesse degustar. Amava descobrir. Fosse uma palavrita subitamente perfeita (ainda que inexistente), um causo regional, um nome sonoro de ave, um idioma inteiro. Joãozito era tanto ao mesmo tempo agora, era tantos presentes, que não poderia lhe caber um só futuro. O que você quer ser, Joãozito? Médico em um dos futuros, diplomata no outro, herói histórico no outro (muitos judeus lhe devem a vida), escritor (e que!) no outro. Além de profissões mais fofamente desassalariadas: Papai-Beleza, Vovô-Beleza.

Fico olhando meus alunos de município. Crianças, adolescentes. Se alguém lhes pergunta o que querem ser, dizem coisas glamurosas, não raro delirantes: atriz, cantor, jogador de futebol, modelo, esposa do Fiuk, namorado da Gisele. Por quê? Porque a (maior ou menor) impossibilidade de se chegar a uma dessas atividades os abona. Sonham, ou dizem sonhar, o impossível, porque isso lhes dá o "direito" de não lutar por ele. Sonham por hábito e comodismo, com o sonho de quem espera e não de quem busca.

Estudar para ser médico, advogado, engenheiro, professor, dentista? Tente usar esse argumento para convencê-los a fazer o exercício, a parar de dar bobeira, de tirar notas escarlatemente vergonhosas. Entre os alunos de hoje, se falta a famigerada "motivação" é porque também se perdeu, em algum momento, a única coisa que pode(ria) salvá-los: a paixão pelo futuro. O futuro dos alunos do presente é presentíssimo. Está no próximo fim de semana, no próximo jogo da Copa, na próxima calça da Gang, no capítulo da Malhação que começa daqui a pouquinho e essa aula está atrapalhando, humpf. Apaixonar-se pelo futuro de daqui a cinco, dez, quinze anos é coisa antiga. Pensar nos próximos dois bimestres? Coisa antiga. Bobagem. Carpe diem. O que, aliás (os coitadinhos não sabem), é realmente antiquíssimo.

Vamos ser otimistas para sobreviver: ainda não se fazem Joõezitos como futuramente.

12 comentários:

Rodrigo disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Rodrigo disse...

Nossa!! Que lucidez exposta neste texto. Fiquei emocionado, pois às vezes quando ando pelas ruas, na faculdade, no serviço, no trem, ônibus, eu costumo notar o que as pessoas pensam e fazem em seu dia-dia, e fico muita das vezes muito triste. Sabe por que? Por isto tudo que você relata aqui, e que deve observar com mais clareza do que eu, posto que trabalhas com o o elemento humano que será o futuro dessa nossa nação. Será quantas pessoas saberiam dizer que Guimarães Rosa faria 102 anos hoje, e que era e continua a ser um dos seres mais Raros, Carismáticos, e Geniais que este País já criou? Penso que a resposta fica em 0,000 alguma coisa por %. Belissímo blog o seu, e desde já estarei aqui sempre e sempre, e obrigado pelas belas, raras e sábias palavras em meu blog que é composto por rabiscos e nada mais que isto... Vou consertar o lance que me falou e muito obrigado mesmo.

www.filosofiadeliquidificador.blogspot.com

Caroline disse...

Fernanda, você esteve agorinha lá no meu Blog "banana-figo" e por essa razão vim conecer seu blog tbm. Que grata surpresa! Esse texto me fez pensar em muitas coisas que realmente cercam a nossa realidade e, por vezes, não prestamos atenção. A nossa juventude da cocacolandia, futebolandia, juventude de astros e ídolos, de novelas e amores platonicos infelizmente não conhecem a verdadeira essência do ser, saber, crescer.

O estudo é o caminho difícil, as passarelas, os gramados, os palcos são uma visão (errônia) de vida grata e fácil. São os filhos de nossa geração, fazer o quê?

abraço!

Jenii disse...

Seu texto fala de motivação motivando e isso é raro, eficaz e único. Parabéns!

http://escritaeletras.blogspot.com/

saudeecompanhia disse...

Gostei do post, bastante realista!
A educação tem sido deixada de lado e outras coisas que não tem importância toma o lugar.
Sucesso com o blog!

Caa Bispo disse...

adoorei. (:
--
www.justtexts.blogspot.com

Gil disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Gil disse...

Adorei desde o títulos às postagens...
seu blog é massa!

É...pensar no futuro é tarefa difícil pra quem se apega apenas a "intensidade" do presente...e qndo se vê,a vida torna-se mais efemêra...

http://emabstrato.blogspot.com/

Fábio Flora disse...

Viva Joãozito! Aprendi demais com as estórias dele, as escritas e as vividas. E gostaria montão que todas as crianças, todas as pessoas tivessem ao menos 10% de sua "sede". Sede de sertão, de mundo, de travessia, de aventura, de infinito!

Silvana Persan disse...

Oi!
Trabalho na secretariade uma escola pública municipal (aqui no meu cantinho de Brasil). Há duas semanas uma mãe foi matricular um aluno e isso até agora me incomodar de certa forma. O menino, que está no 8° ano, estudava na melhor escola pública da cidade (comparada com escolas particulares) mas a mãe "teve" que retira-lo de lá pq precisava que ele estudasse à tarde, pois tinha passado na 'peneira' do time de futebol local e os treinos da equipe juvenil são na parte da manhã. Antes de fazer a matrícula, questionei três vezes se ela tinha certeza do que estava fazendo e a resposta foi sempre um sim meio sem graça.
Não é só o medo da frustração que faz os adolescentes sonharem com algo inatingível (ou quase), mas também os valores. Mais vale o ter que o ser, ter dinheiro e/ou ter status.
Grandes campos de futebol e passarelas: veredas.

seuvicio disse...

Mentira, ele é produto das circunstâncias, assim como todos nozes.

ascka disse...

Se sonhassem com coisas impossíveis, eu não os condenaria. Talvez até os apoiasse, que para mim, sonhos tem que ser é intangíveis mesmo. Mas o problema é sonhar com coisas vazias, produtos da mídia, nada que remeta a um mundo diferente desse no qual eles estão imersos agora e (talvez e tristemente) para sempre.
É triste ver como o conhecimento é deixado de lado na nossa sociedade. Leitura? Só se for harry potter, crepúsculo. Me assusta a quantidade de jovens que nunca ouviu falar de Machado de Assis e tantos outros escritores.
E aí se forma uma gama de profissionais deploráveis, que não conseguem redirir um oficil e não estão aptos a discutir absolutamente nada além da sua rotina diária.