sábado, 5 de junho de 2010

Ô balancê, balancê

Na segunda-feira, faço trinta anos. Na prática, nenhuma grande mudança: continuo sendo tão jovem como aos 25, 28 ou 29, e fisicamente é quase a mesmíssima coisa. No símbolo, porém, é a hora inevitável de pensar se não estou decepcionando a garotinha de 6, a menina de 15, a universitária de 22, a mulher de 26 que eu era. E se não estou decepcionando todos os adultos que foram professores dessas criaturas que já fui. Sempre boa aluna, eu sabia que eles deveriam ter esperanças secretas (ou nem tanto) a meu respeito. Eu também. Não é que eu já tenha pretendido ser médica, juíza, física nuclear ou presidente; pretendia ser professora mesmo – e a função pouco importa. Que eu desejasse ser gari ou vendedora de empadinhas, ninguém teria nada com isso. Mas o que eu queria, mesmo, era ser boa. Boa no que fizesse. De preferência, uma das melhores.

Não me sinto assim. Longe disso. Sinto-me, tenho-me certeza como uma professora medíocre. Esquecível, que faz apenas o que deve fazer, e mal; que não ensina nada importante a ninguém e não marca a vida de nenhum aluno. Isso me frustra tanto, tanto. Mas o profundo desgaste gerado pela sala de aula do ensino fundamental, o profundo ressentimento que sobra, embalofa nossas artérias profissionais de colesterol ruim. Pouco fica de energia para criar. Para mim e meus colegas. Ficamos professores que dão a matéria, não faltam, não se atrasam, cumprem os deveres. É necessário, mas insuficiente. Se minha antiga menina de 15 anos encontrasse sua versão mais velha esmagada de desânimo, provavelmente nem a cumprimentaria na rua. Teria (e tem) vergonha de não se ser inteiramente. Demorará muito a idade em que a gente começa a ser?

4 comentários:

Wênderson Bessa disse...

tenho apenas 21 anos, jovem de mais.. fedendo a xixi ainda.. rss..

porém sou muito satisfeito com meu trabalho e do jeito que vou levando minha vida..

tbm leciono.. más em escola apenas de informática, da pra perceber uma pequena % de alunos que nao querem nada, más os que vão para aprender.. saem de lá realmente preparados! e isso me deixa completamente satisfeido com o sentimento de dever cumprido.

http://granjahits.blogspot.com/

Manoel Leonam disse...

se você encontrasse você mesma com quinze anos você não a cumprimentaria. ou melhor, lhe daria uma surra. veja no que as espectativas dela a transformaram 15 anos depois: uma professora medíocre.

Luiz Reis disse...

O tempo pesa.Pesa nos nossos ombros.Com a idade vem as acomodações,desapontamentos e dividas.Isso tudo pesa.
O Lucca que foi aos 17 no máximo daria bom dia ao Luiz de hoje.(Ou pediria o benção,porque estou igualao meu pai)

Nayara Galeno disse...

É por isso que eu gosto muito daquele filminho clichê que passa na Sessão da Tarde "De repente 30". Ele nos mostra que a vida nos torna algo que nunca queríamos ter sido. Entretanto, pode parecer mais clichê ainda, mas somos responsáveis pelas nossas escolhas.